Viaje a Rio de Janeiro con mi hijo Pablo - enero de 2001

21.9.04

JS: um carioca da gema


Asunto: história (carta de mi amigo Jorge)
Fecha: Viernes, 19 de Mayo de 2000 05:49 p.m.

Querido Eliomar, estou enviando a história solicitada pelo pessoal do gabinete. Não sei se é bem isto o que vocês precisam, de qualquer maneira foi o que saiu ao toque do teclado. Tive a intenção de alinhavar algumas histórias que ajudam na construção do sentido da minha opção pelo Brasil e pela cidade. Espero não ter sido cansativo. Pelo pronto só reitero meu agradecimento pelo lembrança do meu nome. Confesso que, quando soube através do Lefê, fiquei feliz e orgulhoso. Desceu de repente a empáfia portenha. Um abraço Jorgito.

Nasci na cidade de Buenos Aires, Argentina, em 24 de Agosto de 1954. Coincidentemente, na data em que no Rio de Janeiro, Getúlio Vargas “deixava a vida para entrar na história”. Meu amigo e parceiro Lefê de Almeida, afirma que sou a reencarnação deste último. Confesso não saber, até hoje, se é elogio ou achincalhe. Desde cedo Jorgito, pois era o menor dos onze “Jorges” da rua onde me criei. Apelido adotado, tempo depois, “quando virei compositor” ou, como diz Mariozinho Lago: “quanto o samba entrou em franca decadência”. O apelido, pegou!

Entrei no Brasil -pela segunda vez– em Julho de 1976, alguns meses depois da implantação, na Argentina, do regime autoritário da Junta de Comandantes chefiada por Videla. A escolha do Brasil como refúgio é facilmente explicada. Para quem fugia, sem passaporte, Foz do Iguaçu ainda era uma fronteira fácil de atravessar. Além disso tinha um bom alíbi.

Em Buenos Aires trabalhava numa empresa brasileira sediada em Santa Maria RS. Brasil, representava também, a possibilidade de seguir por terra e sem documentos, rumo a Colômbia, Panamá e finalmente México, invertendo o sentido de uma viagem realizada alguns anos antes. Panamá e México eram países nos quais a organização à qual pertencia tinha bases de apoio.

Além disso, claro, o Rio tinha me seduzido quando aquí estive pela primeira vez em 1973. Naquela oportunidade conheci -no carnaval– uma pessoa que teve participação direta no rumo que minha vida tomaria nos anos seguintes: Conceição Chermont. Foi Conceição quem acabou de “formatar” na época do primeiro encontro minha disposição pela militancia. Foi ela quem me acolheu, quando aqui cheguei em 76, absolutamente derrotado. E, finalmente, foi minha companheira durante 16 anos, com quem tive dois filhos, Daniela e Gabriel, ambos “cariocas da gema”.

Assim que Conceição tomou pé da situação, me colocou de cara, em contato com uma turma que batia ponto -segundas à noite e sábados de manhã- no Clube Carioca para jogar futebol de salão. Entre os famosos, Chico, Toquinho, Carlinhos Vergueiro, Aquiles e Magro do MPB4. Entre os “menos” conhecidos a turma que encontraria tempo depois, nas festas, passeatas e militância do PT, nos debates do Barbas e, finalmente, nos desfiles dos blocos carnavalescos Suvaco, Simpatia e Segunda. Entre eles, Sosonho, Emílio Mira y Lopes, Nicky Zarvos e tantos outros. Com eles conheci o bar Jóia (fantástica caipirinha) eas proximidades do Bip-bip.

Ao primeiro, retornaria tempos depois para as concentrações do Suvaco e para comprar, nas mãos do “Passarinho”, as camisetas do Simpatia.

O segundo era avistado desde o bar que o pessoal freqüentava, ainda hoje localizado na diagonal do Bip-Bip e aonde ainda, faço xixi quando o “templo” do Comendador Alfredo Jacinto Melo está lotado.

Coincidências. Bem, não resisto à tentação de puxar pela memória a procura de lembranças que dão sentido e alinhavam a posterior decisão de ficar no Rio. Aqui vão, assim conforme se apresentam...

Sempre tive uma relação de fascínio com o país ou que me acolheu. Relação que começou a ser construída, ainda na minha infância. As figuras emblemáticas e as “figurinhas difíceis” do Pelé, Didi, e Garrincha, -mesmo em épocas não globalizadas- inundavam a fantasia de qualquer garoto. No meu caso, esses ícones eram confirmados pela presença de jogadores importantes no futebol do meu país como Paulinho Valentim e Silvio Marzolini. Posteriormente, pela vitoriosa atuação do Tim (também brasileiro) no comando do time do meu coração: o fabuloso San Lorenzo de Almagro.

Segundo, pelo impacto que teve no meu espírito a inauguração de Brasília, vendida pela imprensa argentina como “cidade do futuro”. Cedo, portanto, se manifestou meu desejo de conhece-la.

Em terceiro lugar porque, desde sempre, Brasil era sinônimo de festa e alegria, as músicas: Cidade Maravilhosa, “Mamãe eu Quero” e a marcha do cordão do Bola Preta, eram presença constante e ponto culminante das festas familiares e bailes carnavalescos.

Quarto e já na minha adolescência, o descobrimento e encantamento com o “poetinha” Vinícius de Morais, e seus parceiros e intérpretes constantes: Maria Creusa e Toquinho. Suas letra e melodias funcionavam como bálsamo numa cidade ordenada pelo autoritarismo de 66.

Em quinto lugar porque, ao entrar ao Brasil, pela primeira vez em 1973, através da fronteira colombiana sucumbi à força da natureza. Além disso, navegando pelo Amazonas, Rio Negro e Solimões nas “gaiolas” rumo a Manaus e Belém do Pará, ouvi pela primeira vez Gilberto Gil e “Procissão”; Caetano e “Deus Dará”; Chico Buarque com “Construção” e “Apesar de Você”.

Tal vez valha a pena lembrar que a decisão de visitar o Brasil resultara das leituras -na Venezuela– dos livros de Jorge Amado. Foi numa praia de Caracas no Natal de 72 que tomei a decisão de passar o carnaval de 73 em Salvador. Ainda era essa idéia que norteava meu caminho ao tomar meu primeiro café da manhã no “Ver o Peso” de Belém e a só dez dias do início do carnaval.

Desde Belém tinha duas opções para chegar a Salvador. Por cima, via São Luís, Natal, etc. Pelo planalto central até B.H e daí subindo. Devo ter escolhido a segunda opção por causa da sedução que Brasília operava desde cedo. Só que uma vez em Belo Horizonte resolvi seguir rumo a Rio aonde cheguei no sábado de carnaval de 1973. Ano em que a Mangueira apresentou na Av. o fantástico samba “Lendas do Abaete”. Demais está dizer que o projeto de Salvador morreu aí.

Três anos depois voltava ao Rio na qualidade de exilado da ditadura Argentina. Após um ano de idas e vindas, foi esmorecendo a idéia de sair da cidade, mesmo tendo obtido o status de Refugiado político da Acnur e um visto para meu exílio na Suécia. Junto com Conceição tomei a resolução de ficar. Presteivestibular para o curso de ciências sociais da UFF e após ter sido aprovado, propus à Acnur ficar no Rio e abrir uma vaga para que outro refugiado pudesse viajar.

A opção, embora arriscada, já se anunciava como definitiva. Ficar significava inserção à sociedade em que viveria. Inserção significava aprender a gostar de samba e de farofa; de praia e de feijão, do Leme e do Leblon. Do Flamengo e samba de raiz. Do chope bebido em pé no botequim e da média com pão e manteiga na padaria. Do bondinho de Santa Teresa e das barcas Rio-Niteroi.


De maneira que, a partir de 1977 começou a ser construída a identidade que hoje carrego e que, conforme brinca Eliomar após o desfile do Simpatia permite identificar-me como “Carioca da Gema”.

Uma vez instalado no tive como fugir de certos determinantes, morador do Leme desde a decisão de ficar, participei, junto com Conceição, Wanda Cordeiro e Lúcia Teresa Carregal da formação da AMALEME, além de ter participado dos “núcleos de Resistência” da época: os cineclubes. O do Leme um dos mais atuantes. Espaço de discussão e de reunião numa sociedade ainda amordaçada pela lógica autoritária. Sociedade que despertava, assustada, do "milagre brasileiro".

Essa primeira experiência comunitária foi alicerçada pela campanha pela anistia e seguida pelo clima de luta e festa pelas eleições diretas. Além de um prazer crescente pelas diversas manifestações culturais da sociedade. Tomar conhecimento, nessa época, da obra de Noel e posteriormente de Geraldo Pereira e Wilson Batista abriram definitivamente o caminho que tinha começado a ser trilhado ouvindo Beth Carvalho e João Nogueira. Deste último, lembrou ter ouvido, assim que cheguei ao Rio a música “Nó na madeira”, como custei a entender a letra Conceição brincou comigo dizendo: “no dia em que você compreender este samba poderá ser considerado carioca”. Vejam vocês a força profética.

Hoje posso dizer sem medo de errar que “em roda de samba sou considerado/de chinelo novo brinquei carnaval..."

Foi assim, por esses caminhos da vida que os poucos, não sem muito custo porém com muito gosto, que fui apreendendo a ginga desta cidade aberta.

Foi no pós 78, na campanha pela anistia. No retorno e nas festas do retorno, e posteriormente na luta pelas diretas, percorri, as ruas da cidade com assombro e satisfação. Freqüentei as festas do PT, no Gurilândia e Santa Tereza, com renovado prazer. Dancei no Circo voador e nas noites na Gafieira, nas domingueiras do Parque Laje, com certa desenvoltura... Comi sanduíches no Cervantes e nas madrugadas, cordeiro no Capela. Viradinho do Luna e chopp no Adónis. Camarão no Sentai e sopa Leão Veloso no Nogueira. Do Veloso que já ostentava outro nome quando aqui cheguei, embora ainda ficasse na Montenegro, e enfim uma infindável lista de gostos, cheiros e sabores que qualquer um hoje pode descobrir consultando o guia de bares da prefeitura.

Aquele mesmo guia que, plagiando a multiplicação dos pães, anuncia que o Comendador Alfredo Jacinto Melo é o melhor garçom da cidade. Pode?

Meus amigos, se isso pode porque no poderia um argentino, portenho, cá entre nós –o que há de pior-, fundar o um bloco e enlouquecer a pacata comunidade lemista na Quinta-feira anterior ao carnaval. E pode, não porque, o “general da Banda” (como cantava olhando para mim Marceu Vieira feliz, no último desfile do Meu Bem), tenha atributos especiais. Senão por que há loucos e utópicos em quantidades suficiente que acreditam em tudo e em qualquer coisa que seja passaporte para a alegria e irreverência.

De fato, foi uma saudável utopia criar o Bloco Carnavalesco Meu Bem, Volto Já! É bom esclarecer que, não fosse a presença do companheiro "Chico Médico" antigo morador do Leme e folião da primeira hora não teria sido possível. Chico, lamentavelmente nos deixou, cedo e estupidamente, permanece porém na minha memória aquele sorriso franco, aberto que era a expressão visível de sua generosidade. Valeu Chico!

Outra pessoa absolutamente responsável pelo sucesso do Meu Bem é Maria Irene Brasil, trabalhando nos bastidores, consertado todas as cagadas que eu fazia e continuo fazendo, trazendo todo mundo para a brincadeira, vendendo camisetas e costurando as bandeiras que todo ano teimamos em perder; emprestando enfim, sua alegria para que todos possamos dela participar. Ela é assim, primeiro chega o sorriso que descontrai, que convida e quase intima a participar. E lá vamos nós rumou ao sétimo desfile com um enredo já amarrado: "2001 o Leme foi pro espaço".

Daí para brincar de compor, foi um passo que não tenho a menor idéia de como foi dado. O dado é, que começou com um samba para o Barbas, escolhido para desfilar: “O dá ou desce”. Os iniciados conhecem a estória da sua composição. A vitória do “chupa cabra” comemorando os 10 anos do Bloco de Segunda em parceria com Lefê de Almeida. “Rio de Sol a Sol” feito para o Bloco Aventureiros do Leme e parceria com Alvaro e Maurício Monteiro. O samba Tia Ciata, escolhido pelo bloco "Tem Gringo no Samba" feito em parceria com Cataldi, Hugo do chapéu e Tânia Machado. Além da vitória, também em 2000, no Bloco de Segunda "Odorico do Planalto"

E, finalmente, em parceria com Agenor de Oliveira, Wanderley Monteiro, Maurício Monteiro e Ronaldo Soares vimos ser escolhido pelo pessoal do Simpatia para o desfile do carnaval de 2000 o samba: Carioca da Gema. Um abraço. Jorgito


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